quarta-feira, 10 de junho de 2026

O amor que vale

 Você conhece o tipo. 
Aquele amor que chega 
Com uma lista de reformas na mão, 
Como um fiscal da prefeitura 
Condenando a estrutura da sua alma. 
 
Primeiro pede para você falar menos. 
Depois para sonhar menos. 
Depois para rir menos. 
Depois para ser menos. 
E um dia você percebe 
Que está sentado numa cadeira, 
Olhando para uma parede, 
Tentando lembrar quem diabos era 
Antes daquela história começar. 
 
O amor de verdade não faz isso. 
Ele pode brigar, 
Bater portas, 
Deixar pratos na pia 
E noites mal dormidas. 
Mas não exige o assassinato 
Da pessoa que você era. 
 
Porque desaparecer 
Não é prova de amor. 
É só uma forma lenta de morrer 
Com aplausos da plateia. 
E a vida já tem mortes suficientes. 
 
Quando encontrar alguém 
Que deixe seus defeitos respirarem, 
Que não queira trocar suas cicatrizes 
Por uma versão mais apresentável de você, 
Segure sua bebida, 
Ouça sua música favorita 
E agradeça. 
Não acontece todo dia. 
 
A maioria das pessoas 
Não procura companhia. 
Procura um espelho obediente. 
 E amor, 
Pelo menos do jeito que aprendi, 
É outra coisa. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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