E é essa escuridão que me vira do avesso.
Porque o que não vejo
Me toca mais fundo que qualquer presença.
É como se teu olhar inexistente
Deslizasse por mim inteiro,
Descobrindo pontos que nem eu sabia guardar.
Sinto-te chegando antes mesmo de existir.
Uma aproximação sem corpo,
Mas tão densa, tão quente,
Que meu próprio ar hesita
Antes de continuar entrando.
É cruel,
Como o nada pode me atingir com tanta precisão?
O desejo que não posso sentir
Me invade como um golpe macio,
Um calor que sobe voraz pelas minhas entranhas
E faz do meu silêncio um campo em chamas.
Não há toque, não há pele,
Mas há algo em mim se contorcendo
Como se teu nome tivesse peso,
Como se tua ausência tivesse mãos.
E quando imagino tua boca,
Não a forma, mas a intenção,
Um tremor profundo me atravessa.
Aquele instante suspenso,
Em que tua respiração
Inventada para um milímetro da minha,
É tão violento
Que quase me obriga a fechar os olhos.
É ali que meu corpo responde,
Como se dissesse:
“Eu sei o que você faria se existisse.”
Tua ausência encosta em mim
Com urgência.
Com uma fome antiga.
Com uma intensidade que quase dói.
E, sem perceber,
Eu me inclino para ti
Como quem se entrega ao precipício
Antes mesmo de olhar para baixo.
Porque há um ponto,
Um ponto fundo, íntimo, indizível
Onde teu impossível me rasga e me reconstrói.
Onde meu peito pulsa rápido demais.
Onde minhas defesas queimam
Como se fossem feitas de papel molhado.
E é aí que admito:
Te desejo naquilo que não posso tocar,
Te quero no espaço onde ninguém toca,
Te sinto no lugar que nem o tempo alcança.
E quando teu invisível me atravessa,
Eu me quebraria inteiro
Para sentir mais um pouco.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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