sexta-feira, 12 de junho de 2026

Aquilo que me arranca o ar

Amo teus olhos que não posso ver, 
E é essa escuridão que me vira do avesso. 
Porque o que não vejo 
Me toca mais fundo que qualquer presença. 
É como se teu olhar inexistente 
Deslizasse por mim inteiro, 
Descobrindo pontos que nem eu sabia guardar. 

Sinto-te chegando antes mesmo de existir. 
Uma aproximação sem corpo, 
Mas tão densa, tão quente, 
Que meu próprio ar hesita 
Antes de continuar entrando. 
É cruel, 
Como o nada pode me atingir com tanta precisão? 

O desejo que não posso sentir 
Me invade como um golpe macio, 
Um calor que sobe voraz pelas minhas entranhas 
E faz do meu silêncio um campo em chamas. 
Não há toque, não há pele, 
Mas há algo em mim se contorcendo 
Como se teu nome tivesse peso, 
Como se tua ausência tivesse mãos. 

E quando imagino tua boca, 
Não a forma, mas a intenção, 
Um tremor profundo me atravessa. 
Aquele instante suspenso, 
Em que tua respiração 
 Inventada para um milímetro da minha, 
É tão violento 
Que quase me obriga a fechar os olhos. 
É ali que meu corpo responde, 
Como se dissesse: 
“Eu sei o que você faria se existisse.” 

Tua ausência encosta em mim 
Com urgência. 
Com uma fome antiga. 
Com uma intensidade que quase dói. 
E, sem perceber, 
Eu me inclino para ti 
Como quem se entrega ao precipício 
Antes mesmo de olhar para baixo. 

Porque há um ponto, 
Um ponto fundo, íntimo, indizível 
Onde teu impossível me rasga e me reconstrói. 
Onde meu peito pulsa rápido demais. 
Onde minhas defesas queimam 
Como se fossem feitas de papel molhado. 

E é aí que admito: 
Te desejo naquilo que não posso tocar, 
Te quero no espaço onde ninguém toca, 
Te sinto no lugar que nem o tempo alcança. 
E quando teu invisível me atravessa, 
Eu me quebraria inteiro 
Para sentir mais um pouco. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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