Com as mesmas palavras penduradas na boca,
Os mesmos medos dobrados no bolso,
Os mesmos sonhos comprados em liquidação.
Eu segui na direção contrária.
Não porque fosse mais sábio.
A vida já me ensinou a desconfiar dos sábios.
Mas havia algo podre naquele coro,
Uma ferrugem escondida sob os discursos,
Um cheiro de cela pintada de liberdade.
Eles não gostavam das minhas perguntas.
Perguntas estragam a decoração das certezas.
Preferiam os homens que concordam,
Que abaixam a cabeça no momento certo,
Que aplaudem antes de entender.
Então me chamaram de estranho.
Como se isso fosse um insulto.
Eu já tinha sido coisa pior:
Obediente, por exemplo,
E isso quase matou minha alma.
Agora caminho sozinho quando preciso.
Bebo meu café olhando o mundo passar.
O rebanho continua correndo para algum lugar.
Talvez para lugar nenhum.
E, pela primeira vez, isso não me preocupa.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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