quarta-feira, 3 de junho de 2026

Me chamaram de estranho

 Havia uma multidão atravessando a rua 
Com as mesmas palavras penduradas na boca, 
Os mesmos medos dobrados no bolso, 
Os mesmos sonhos comprados em liquidação. 
Eu segui na direção contrária. 
 
Não porque fosse mais sábio. 
A vida já me ensinou a desconfiar dos sábios. 
Mas havia algo podre naquele coro, 
Uma ferrugem escondida sob os discursos, 
Um cheiro de cela pintada de liberdade. 
 
Eles não gostavam das minhas perguntas. 
Perguntas estragam a decoração das certezas. 
Preferiam os homens que concordam, 
Que abaixam a cabeça no momento certo, 
Que aplaudem antes de entender. 
 
Então me chamaram de estranho. 
Como se isso fosse um insulto. 
Eu já tinha sido coisa pior: 
Obediente, por exemplo, 
E isso quase matou minha alma. 
 
Agora caminho sozinho quando preciso. 
Bebo meu café olhando o mundo passar. 
O rebanho continua correndo para algum lugar. 
Talvez para lugar nenhum. 
E, pela primeira vez, isso não me preocupa. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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