terça-feira, 23 de junho de 2026

Cartas para Ninguém

Faço longas cartas para ninguém. 
O envelope conhece apenas o vazio. 
As palavras caminham sem promessa de chegada. 
Ainda assim, insistem em nascer. 
Talvez escrever seja uma forma de existir. 

Não espero respostas do mundo. 
O silêncio também possui uma linguagem. 
Cada página revela uma pergunta. 
Cada pergunta abre outra ausência. 
E sigo habitando esse intervalo. 

Há dias em que o sentido parece distante. 
Como uma estrada coberta pela neblina. 
Então escrevo sem procurar certezas. 
A dúvida também é um caminho. 
E o caminho transforma quem o percorre. 

Se ninguém ler estas cartas. 
Nada será retirado do que vivi. 
A existência não pede testemunhas. 
Ela apenas exige coragem para continuar. 
Mesmo quando tudo parece suspenso. 

Talvez o destinatário nunca tenha existido. 
Talvez eu o tenha inventado para conversar com o infinito. 
Cada palavra devolve um fragmento de mim. 
Cada silêncio me devolve outro. 
E entre ambos continuo escrevendo. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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